Chico Buarque: Terra e Morte e Vida Severina, parcerias na denúncia do latifúndio

A poesia de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, fez com que Chico Buarque de Holanda musicasse os poemas para o teatro, em parceria com o poeta pernambucano. O encontro de dois mestres dos versos que se uniam além da música, também através da sociologia, Chico, filho de Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico “Raízes do Brasil” e João Cabral, primo de Gilberto Freire, autor de “Casa grande e senzala”. A união se destinava em levar aos palcos dos teatros, em 1965, um dos mais profundos livros da poesia brasileira, “Morte e Vida Severina”, que teria na direção Roberto Freire, que denunciou as condições dos sertanejos e do iniciante compositor de A Banda.

A peça imortalizou uma das mais expressivas músicas de combate ao latifúndio, a partir da parceria de Melo Neto e Buarque, que seria “Funeral de um lavrador”. A música seria regravada no quarto álbum da carreira de Chico em 1968, onde este agradece diretamente a ajuda de João Cabral e Tom Jobim.

 Veja Chico Buarque – Funeral de um lavrador
A música denuncia de que a única terra que os homens simples, os “Severinos, filhos de Marias”, é sua própria cova, pois na injustiça perpetuada no Nordeste, na concentração de terras, no grande latifúndio, o sonho da reforma agrária, na “terra que querias ver dividida” é mantida na estrutura de violência.

Chico Buarque, em 1997, realizaria uma nova reflexão sobre a realidade dos “severinos”, agora com o nome de Sem Terra, em parceria com o fotógrafo Sebastião Salgado. O disco Terra teria quatro músicas, que seriam Assentamento, Brejo da Cruz, Fantasia e Levantados do chão, esta última em parceria com Milton Nascimento. O compact disc (CD) levou a poesia sobre a situação do campo e a força dos movimentos de reforma agrária, que foi anexado ao livro, que contêm fotos da realidade dos trabalhadores rurais, em especial aqueles que não tinham terra e eram vítimas do grande latifúndio. A menina que foi escolhida para a capa do CD continua participando do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Veja Chico Buarque  – Assentamento
Veja Chico Buarque – Levantados do Chão
Conheça:
Chico comentou sobre compor as músicas de Morte e Vida Severina em entrevista a Ziraldo, no Pasquim no ano 1975. Veja o que falou:
Ziraldo – Eu queria saber como foi sua experiência com João Cabral. Tem aquele negócio da métrica: às vezes precisa de mais uma palavrinha no verso pro acorde ficar igual, aí tem que segurar a ponta do acorde. Como foi?
Chico – Era uma luta.
Ziraldo – Saiu um negócio direito pra burro.
Chico – Existiu uma malandragem no meio. Me lembro de um verso que não coube de jeito nenhum. O trabalho era de equipe. Roberto Freire é que estava dirigindo o negócio. Mesmo no começo os atores participavam desse processo. Lembro de uma música no final, quando nascia a criança: “De sua formatura / deixai-me que diga / é belo como um coqueiro… Bom como caderno novo” Um verso não cabia de jeito nenhum. Convenci eles colocarem uma atriz correndo de repente e dizendo o verso. (falando rapidamente) “Da sua formosura deixai- me que diga!” (risos gerais).
Ziraldo – Colou! Criatividade é isso.
Chico – E outras coisas que fomos cortando porque não cabia na letra. Uma delas fiquei chateado depois porque cortei sem pensar. Não tinha pensado mesmo. Era uma brincadeira, uma crítica, ao Gilberto Freyre. E eu não tava sabendo. Depois o João Cabral me perguntou porque eu tinha tirado. Realmente era porque não cabia na música. “…um mocambo modelar / como dizem os sociólogos do lugar.” Mas eu não tinha ligado sociólogos a Gilberto Freyre. E “so-ció-lo-gos”… não dá.
Ziraldo – Livrou a cara do Gilberto sem querer. Se soubesse, não tinha livrado.
Chico – Botava “SOCIÓLGOS”.
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