Gonzaguinha: E vamos luta! Para lembrar dos esquecidos que lutaram por seus direitos

Gonzaguinha cantou durante a turnê de shows, Vida de Viajante (1981), com seu pai Luiz Gonzaga, a música “Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória (Legião dos esquecidos)”.
A música homenageia a resistência ao golpe militar de 1964, de pessoas que deram a vida, e que enfrentaram as conseqüências de lutar pelos direitos, demonstrado com os seguintes versos: “Memória de um tempo onde lutar / Por seu direito / É um defeito que mata”.

O titulo cita a falta de memória desse tempo, fato que sinto, ao ouvir a música de Gonzaguinha. Escuto os nomes e muitas vezes os versos têm destinos, posso seguir pelo caminho mais fácil ao acreditar que Júlio de Santana, citado na canção é uma simples alusão aos resistentes do golpe de 64. Mas a forma colocada com o nome e sobrenome me fazem procurar, e achei dois Júlios de Santana, de lados opostos durante o regime militar.
Veja Gonzaguinha – Achados e Perdidos / Pequena história de um tempo sem memória (Legião dos Esquecidos)
Dois nordestinos que combinam com os versos do poeta.  O corajoso, um pernambucano, o primeiro preso político do regime militar e o obscuro, um maranhense, acusado de ter matado 492 pessoas em seus 35 anos de atividade como pistoleiro, tendo atuado a pedido do regime militar e matado Maria Lucia Petit na guerrilha do Araguaia, mas só apresentado ao grande público no ano de 2006, através do livro “O Nome da Morte” do jornalista Klester Cavalcanti.
Talvez a canção não faça referência a nenhum dos dois, mas corresponde a “histórias que a história / Qualquer dia contará / De obscuros personagens / As passagens, as coragens / São sementes espalhadas nesse chão”.
Os dois, além do mesmo nome, estiveram em campos opostos. Um lutando pela liberdade política e igualdade no campo. Outro esteve a serviço do latifúndio e do regime militar de exceção, sendo que a ossada de sua vitima, Maria Lucia Petit só teve a ossada descoberta em 1991.
A música fala dos heróis tombados, que não são lembrados, mas dão suporte na construção dos heróis. Fala que mesmo com a maré contrária, tem a possibilidade de que na luta construir uma nova sociedade e “um novo dia”. E no fim convoca a não esquecer dos que tombaram e convoca, “vamos à luta”.
Homenagem a Chico Mendes
O grupo musical “As Chicas” , em 13 de dezembro de 2008, durante o show na cidade de Rio Branco, cantaram a música de Gonzaguinha em homenagem a passagem de 20 anos da morte do líder seringueiro Chico Mendes.
As Chicas – Pequena história de um tempo sem memória (Legião dos Esquecidos) 
Saiba quem foi:
Julio Santana – O Pernambucano
Liderou ao lado de Francisco Julião, o movimento conhecido como as Ligas Camponesas. Iniciou suas atividades na Zona da Mata, ao sul de Pernambuco. Foi preso no dia 10 de outubro de 1963, tendo o sido primeiro preso político antecedendo o regime de 1964. Foi ligado ao movimento trotskista e devido às condições na cadeia, ficou paralítico. Foi libertado em junho
Veja o depoimento de Joel Câmara – Advogado das Ligas Camponesas sobre Julio Santana
Julio Santana – O Maranhense
Jovem foi introduzido na pistolagem por um tio e participou em conjunto com o Exercito Brasileiro na operação realizada no Pará, conhecida com Guerrilha do Araguaia. Recrutado por conhecer a região, sua participação teve dois episódios, como a tortura do Líder, José Genoino e da morte da líder secundarista, Maria Lucia Petit. Matou 492 pessoas anotando tudo em um caderno. O jornalista Klester Cavalcanti lançou no ano de 2006, o livro “O Nome da Morte”, sendo o único livro que o assassino se revela e fornece o nome das vitimas.
Veja o vídeo da palestra de Klester Cavalcanti.
Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória
Gonzaguinha
Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
É um defeito que mata
São tantas lutas inglórias
São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Uma crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
São braços esquecidos que fizeram os heróis
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera, nunca alcança
Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará
Ê ê, não quero esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta.
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