Madagascar de Emicida: Um clipe pra pensar um mundo contemporâneo de prateleiras de supermercado

Talvez nunca tenha feito um texto tão pessoal. Nunca gosto de falar muito sobre mim, acho que sou comum demais. E por essa razão vou jogar esse texto neste blog sem a esperança de ser lido, talvez por umas duas pessoas que eu envie o texto.

Este blog é uma estratégia de resistência. Nasceu das mentiras que contamos pra gente. Mas na caminhada foi servindo de guia no dia a dia pra ampliar o número de informações para lidar com um mundo tão cruel.

Emidida – Madagascar

Nunca posso falar pelos outros, mas pra mim o mundo é tão estranho e desumano que ficar parado não é opção. Mas as escolhas que faço como são diferentes da maioria, me causam desconforto pela recriminação. Talvez por isso que tenha escolhido “Madagascar” de Emicida pra fazer este desabafo.

O clipe é justamente isso, estratégias de sobrevivência num mundo que são prateleiras de supermercado. Produtos descritos e que as pessoas são meras repositoras de sentimentos e mercadorias, quando não caixas que recebem o dinheiro para o dono do supermercado. Uma estrutura montada para vigiar as fugas da imaginação, que vem através dos sonhos ou das rimas. Subversão em mundo de mercadorias. Sonhos, o mais puro crime. Sonhos reais.

Talvez o clipe não seja bem visto pelas feministas, já que passa diversas mulheres, talvez o artista queira ter demonstrado a diversidade da nação brasileira. Mas que aventura maior pra um repositor de supermercado do que acordar em uma casa confortável e com uma mulher que queira te dar afeto.

Às vezes acho que carinho de verdade ficou algo proibido neste mundo. Claro que existe e nós perseguimos isso. Mas às vezes percebo relações muito plásticas. Viver é mito, viver é uma experiência única. Por que a necessidade de afirmar de forma tão gritante neste mundo digital.

Ainda me lembro das vezes que andei na estrada e naquelas imagens que vi, no sertão do Brasil e nunca tive a necessidade de falar ou compartilhar com ninguém. Imagens que apreendi e morrerão comigo. Um nascer do sol no interior do Rio Grande do Norte, um monte que crescia, coisas banais, mais lindas na minha mente.

Assim como as imagens, as músicas e os sons ecoam em formato de sonhos na minha mente. Como um Sandman que derruba areia, as músicas e suas letras me fazem passear pela realidade. Hoje de manhã de me lembrava de “Eu sou um caso deles” dos Novos Baianos ou “Abre Aspas” de Nô Stopa, duas músicas discursivas sobre o tempo, formas de você lidar/observar este amigo/inimigo. A noite ouvia “Seis Minutos” de Otto, outra forma pensar o mundo, mas o verso é cortante, “Não precisa falar / Nem saber de mim / E até pra morrer / Você tem que existir”.

Emicida tem nos presenteado com lindas letras que tocam de forma direta situações do cotidiano. Fico com medo de fugir das linhas populares, mais seus clipes reinventam um realismo soviético, abrindo para um realismo brasileiro contemporâneo. Queria falar mais sobre este músico que nos preenche com lições nas horas incertas.

Neste clipe me lembrou duma música, talvez fosse o caso de se tentar uma parceria, Zeca Baleiro. Quando este fez a música “Eu despedi o meu patrão”, declarava justamente isso, que “Ele roubava o que eu mais valia / e eu não gosto de ladrão / ninguém pode pagar nem pela vida mais vazia / eu despedi o meu patrão”.

Como disse no inicio, este blog virou uma estratégia de resistência minha para criar disciplina num mundo desumano. Não tive a sorte de criar isso cedo, e todo momento as condições da vida vem me desorganizando e me tragando, mas acho que escrever nunca foi tão preciso. Para além de um mundo de condições bobas, mas escrever com “Alteridade” e para romper as falsas polêmicas. Este blog, antes de tudo é uma de resistência da minha alma. A gente quer ser visto, mas as verdadeiras revoluções são silenciosas e começam em quartos escuros, ou em navios como “Encouraçado Potemkim”.

Mas a vida segue e conheça a letra de “Madasgacar”:

Madagascar

 

Noites de Madagascar

Quantas estrelas vi ali

Em seu olhar

Coisa com as quais

Posso me acostumar facin’

Posso me acostumar facin’

Céu azul, verde mar

Pássaros, pássaros, pássaros a cantar

São coisas com as quais

Posso me acostumar facin’

Posso me acostumar facin’

 

A vida não passa, filme no ar

Sensual, classe, Renoir

Como se dançasse, folhas, ondas e a beleza perfuma o ar

Nesse mundão de Oduduwa, da pele a flor

Deus nos acuda, Pablo Neruda bem, são cem sonetos de amor

Sou do versos de Mia Couto, onde eu ria

Outro, e os sons combinam

Ensinam como beijos bons nunca terminam

É surreal como machuca a mim quem te quer mal

Sim, fere real

Aos carinhos do vento a gente se espreguiça

Com todo tempo ao favor da nossa preguiça

Se na dor é cacto, façamos um pacto

Já que tu curte um plano

Deixa a espuma dançar nos pés

Que ela leva toda o revés

Eu amo as…

 

Noites de Madagascar

Quantas estrelas vi ali

Em seu olhar

Coisa com as quais

Posso me acostumar facin’

Posso me acostumar facin’

Céu azul, verde mar

Pássaros, pássaros, pássaros a cantar

São coisas com quais

Posso me acostumar facin’

Posso me acostumar facin’

 

E quando o sol dorme(dorme) a gente faz amor

Sô especial for me, pólen, flor

Que o tempo se torne onde for

Em algum enorme, choque, esplendor

Tipo patuá, rindo pra zuar, vindo Mafuá

Anti-chagá tortura

Pique uma adaga, perfura, dura

Me afaga cantura, vossa eu nem sei se é minha cura

Nosso, é mão, é cintura, é força

Resulta em mistura, braços que quase sufoca

Sentimentos plow, igual pipoca

Ok, entendeu sua loca?

Tantos carinho, quantos caminhos, até chegar em sua boca

Numa aurora reluzente

Outras vidas, outras frentes

Tipo o céu e o mar desencontra, mas se tromba lá na frente

Eu amo as…

 

Noites de Madagascar

Quantas estrelas vi ali

Em seu olhar

Coisa com as quais

Posso me acostumar facin’

Posso me acostumar facin’

Céu azul, verde mar

Pássaros, pássaros, pássaros a cantar

São coisas com quais

Posso me acostumar facin’

Posso me acostumar facin’

 

(Então é você que está confundido ao olhar as estrelas?)

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