Belchior: Uma saudade difícil de matar!

A morte de Belchior acertou com um soco no coração de muitos de seus fãs e admiradores. Os versos de suas músicas mais conhecidas embalaram gerações e se tornou um hino através da voz de Elis Regina para a música “Como nossos pais”. Atribuímos uma sensibilidade acima da média para este grande músico que junto com Fagner eternizou o “Mucuripe” em uma canção.

Conseguiu unir “Assum Preto” de Luiz Gonzaga com o Corvo ou pássaro preto de Edgar Alan Poe numa música como “Velha Roupa Colorida. A voz de Elis foi importante na divulgação das três músicas.

Mas não foi só Elis que se impressionou com as letras do nosso sobralense. Tim Maia gravou junto com Belchior, “Hora do Almoço”. Erasmo Carlos e Vanusa gravaram “Paralelas”, tornando um hino para os artistas de outros estados que chegam no Rio de Janeiro. Toquinho gravou um disco em parceria com Belchior no ano de 1978, o LP se chamaria “Pequeno Perfil de um Cidadão Comum”, trazendo seis composições como a do titulo que ganhou alguma notoriedade no período. As outras cinco parcerias são: “Alegoria da Aves”, “Os dozes pares da França”; “Signo Estrelado”; “Salmo 78”; e “Copla do cavalo Morsamor”. Mesmo os mais jovens como grupo Los Hermanos, gravaram a sua música “A palo seco”.

Seu maior sucesso, “Como nossos pais” me tocou em vários momentos de minha vida. A música que é um dialogo entre um homem e seu amor sobre o momento politíco do país, um que vê os indícios do “o cheiro da nova estação”  que está vindo e a amante conformada com o presente, em que afirma “Por isso cuidado meu bem / Há perigo na esquina / Eles venceram e o sinal / Está fechado pra nós /Que somos jovens….” O ponto de virada da música é de uma grandeza poética, pois afirma “Mas é você que ama o passado e que não vê / É você que ama o passado e que não vê / Que o novo sempre vem…”. Uma música que vai pessimismo ao otimismo num dialogo dialético. A música “Apenas um rapaz latino-americano” foi uma das primeiras músicas que me cativou e usava como refrão em diversas situações.

As parcerias com o pessoal do Ceará como Ednardo, Amelinha e Fagner ou com outros nomes da música nordestina como Zé Ramalho, Alceu, Geraldo ou Elba, traz um Nordeste vivo e que traduzem a influência da região na música brasileira.

Em sua música, Belchior cutucou artistas como Caetano e Raul Seixas. Caetano no dia seguinte a sua morte, escreveu um depoimento como especial para o Jornal O Estado de São Paulo no dia 1º de maio de 2017:

“A última vez que vi Belchior foi em São Paulo, pouco antes do seu famoso desaparecimento. Ele me procurou e conversamos bastante. Me trouxe de presente dois retratos de Drummond desenhados por ele, muito sugestivos e profundamente sentidos. Achei significativos a visita e os presentes. Nunca me esqueço de sua entrada no palco do teatro João Caetano, quando o vi pela primeira vez. Ele veio da coxia quase correndo e gritando, antes da introdução da banda: “Quando me lembrei já estava em cima da hora!” Era a frase que Gil diz na abertura de minha Irene, ao perceber que tem que recomeçar (Gil toca violão em todas as faixas do disco que gravei em Salvador depois da prisão, durante o confinamento, antes de irmos para fora do país). A tirada de Belchior era mais uma das referências irônicas que ele fazia ao tropicalismo. Tinha uma beleza poética imensa, como muitos dos versos de suas canções. A chegada à cena do “pessoal do Ceará” teve como uma de suas marcas a intenção de exibir confronto com os tropicalistas. Sugeriam que nós, os baianos, já representávamos o estabelecido, o velho, enquanto eles seriam o novo e a verdadeira rebeldia. Me parecia uma interessante reação ao habitual “tudo amiguinho, tudo certo”. No estilo de Belchior, soava justo. O tropicalismo se opôs à bossa nova louvando João, Jobim e Lyra. A bossa nova se opôs à bossa velha louvando Caymmi, Ary e Bide&Marçal. O pessoal do Ceará queria opor-se mesmo. Não chegava a isso e a recusa à louvação teria ficado vazia não fosse o talento e a personalidade de Belchior. O belo “Pavão” (Pavão Misterioso) de Ednardo era psicodélico e nordestinista. Ou seja: nada que o tropicalismo já não tivesse sido. Fagner era, quanto a todas essas questões, indefinido. Belchior esboçava um estilo anti-sixties, sugeria uma volta aos fifties como prefiguração os eighties. Eu amava (e amo) Mucuripe. A frase musical que sustenta o verso “Vida, vento, vela leva-me daqui” é tão bela e adequada que dois dos maiores cantores do Brasil não conseguiram chegar à sua altura. Mas Mucuripe era uma canção “clássica”, atemporal. Ela trouxera os cearenses ao reconhecimento público, mas não representava ruptura. As músicas que Belchior assinou sozinho fizeram isso. Todas as citações a canções nossas que estavam em trechos de canções de Belchior me agradavam por estarem dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante. (…)” (Caetano Velosos. O Estado de São Paulo, 1º de Maio de 2017, http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,cancoes-de-belchior-nao-sao-das-morrem-diz-caetano-veloso,70001759119)

Mas não foi só nos seus contemporâneos que a falta de Belchior traz tristeza. Artistas da nova geração como Daíra Saboia que estava em turnê com homenagem a Belchior foi impactada pela morte do músico. No dia seguinte, 1º de maio, postou sua interpretação para Alucinação. Sete dias depois, no dia 7 de maio, postou um clipe em que recita o poema da música “Lamento do marginal bem sucedido”.

Mas o que me chama atenção no seu sumiço, no seu “Direito de desaparecer” é que Belchior não era um artista sumido ou que estava no fim de carreira. Por mais dividas que tivesse ou problemas, Belchior decidiu dizer não ao mercado. O sucesso, a fama, as entrevistas, assim como as mordomias foram deixadas de lado para viver a vida de um cidadão comum. Ao longo de seu sumiço, a nostalgia foi aumentando, assim como as lendas. Uma aparição renderia muito dinheiro, mas isso não interessava ao velho “Bardo” de 70 anos, ventilava em voltar para fazer um novo disco e fazer alguma coisa em relação no Brasil. Seria mágico se isso acontecesse.

Mas sabe o que foi belo é no Primeiro de Maio, dia que ele eternizou em minhas lembranças no show da Central Única dos Trabalhadores, ter carros de som cantando seus sons e sendo entoados nas vozes de trabalhadores. Assim que quero me lembrar de Belchior, não na frente de seu corpo inerte, mas nas ruas, “pois amar e mudar as coisas me interessa mais”.

Tim Maia e Belchior – Hora do Almoço

Vanusa – Paralelas

Toquinho – Pequeno perfil de um cidadão comum

Los Hermanos – A palo Seco

Belchior, Ednardo e Amelinha – Pessoal do Ceará

Fagner e Belchior – Hora do Almoço

Sandy – Como nossos pais

Fagner – Paralelas

 

Chico Anysio – Galos, noites e quintais

Ednardo, Amelinha e Belchior – Terral

Zé Ramalho e Belchior

Paulo Neto – Tudo outra vez

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